Sábado, Abril 26, 2008

[come and kill me again.while.you.smile.like.a.friend.]

"Eu nunca pude te contar. Mas no meio desse hiato enorme entre a gente eu te vi uma vez. Você não me viu, lógico. E melhor que assim tenha sido, porque, de certa forma, eu escolhi que você não me visse.
Algum ponto da República Argentina. Algum dia da primavera do ano passado. Eu não sabia o que estava fazendo a 500 quilômetros de casa, eu só fui o mais longe que eu podia ir, então, não é justo me perguntar o que eu fazia exatamente naquela rua, naquele tubo.
Então, a duas esquinas dali, você, ou supostamente você, surge duma rua que cruza a avenida. Eu sabia que era você, porque era o mesmo sapato, a mesma bolsa da última vez que você ficou na minha frente. Mas sabia que era você. Porque ninguém mais ia brilhar tanto no meio daquela calçada suja.
E mesmo que não fosse assim. Que você vestisse roupas completamente diferentes, que nunca vi em você, que você pintasse seu cabelo e se mudasse inteira, eu ia saber que era você. Se cada esquina daquela cidade tem seu cheiro, se as paisagens tem sua cara e a água seu gosto, eu sentia esse cheiro tão forte, que me virava bruscamente, como se um imã me puxasse, e lá era você, ainda mais linda do que quando você foi embora.
E não foi por vergonha que não parei tudo que ia fazer, pulei aquela catraca e corri atrás de ti. Meu rosto espantado, com a visão embaçada te mirando de longe com meu corpo apertado contra o vidro era uma visão muito mais patética do que se te seguisse, como num filme. Foi por medo, não só medo de você fugir de mim literalmente, mas medo de estragar aquela cena, te distrair enquanto risonha você reinava sobre aquela rua malcuidada. Como um fotógrafo que não interfere na cena, só me sobrou ver você de longe, enquanto timidamente cantava There She Goes baixinho, com os olhos cheios d'agua e me perguntando como você estava enquanto assistia você ir embora."

Segunda-feira, Abril 21, 2008

[os.teus.sonhos.destruíram,.tua.jóia.roubaram,.este.azar.sobre.você,.como.uma.nuvem.que.não.chove]

Antes, eu sentia essas histórias na lembrança. Não como se fossem um filme pasando na minha frente, como agora. Mas um fato vivo na memória, que poderia até acontecer de novo.
As pessoas a minha volta, eram testemunhas e não personagens. Eram não parte do passado, mas dum presente que aconteceu ontem. E poderia acontecer de novo.
Antes, esse era o caminho de ida, não de volta, e qual a surpresa de encontrar o que deixei, exatamente do jeito que deixei, mas sem eu como figurante na história. E isso nunca, nunca mais vai acontecer de novo.

Sábado, Abril 19, 2008

[you.can.taste.the.fire.from.yourself]

Antes de mais nada, a vida é feita de disfarces. Não só aqueles que tem um jardim na cabeça com um mundo sujo em volta. Tem os que fazem trincheiras desnecessárias na expectativa (ou esperança) de uma guerra com o resto do mundo, há quem faça máscaras apenas por gostar de usar elas, bem, pouco importa. Como quem cimenta a calçada e se esquece que há 20 quilômetros de terra abaixo daquela casquinha, , chega um dia onde a gente passa a acreditar na própria mentira.
A maioria funde sua mentira com a mentira dos outros, e assim segue feliz até o fim da vida. Mas algumas pessoas, recebem daquilo que alguns chamam de Deus, outros de Alá, Buda, destino, acaso ou Capitalismo um castigo cruel: um pouco de inteligência. E eles percebem que não são aquilo que acham que são. Alguns sofrem um pouco mais, são mais inteligentes ainda e percebem que não são aquilo que eles queriam ser também.
Daí pra frente, é tudo desespero. O jogo de esconder o que você sente só gera mais coisa para esconder. Até o dia onde tudo não cabe mais onde quer que você esteja escondendo. Lógico que um dia você perde a noção de tudo a sua volta. Lógico que tudo vira um mundo de psicose onde todos querem te comer vivo. Mas isso não é o pior: um dia você vai olhar no espelho e não vai ver você. Não vai ver o que você queria ver. Não vai ver simplesmente nada.
Poderia ter sido tarde demais pra ver que a vida não é tão ruim assim. Mas ainda há pessoas que conseguem fazer o caminho de volta. Os que conseguem se livrar disso tudo, e os que mergulham no jogo até o fim e vencem, enganando todo mundo que precisa sobre quem eles realmente são: todos, menos eles mesmos. E esses são os dois grupos mais corajosos de pessoas.