[með.bloðnasir]
Se eu não passasse por essas noites, eu não veria o sol nascer, não teria essa cidade sob meus pés, como se a manhã quisesse me dar um abraço Não teria a chance de olhar pra trás e lembrar da noite de ontem como se tivesse sido exatamente ontem, e não anos atrás. Não teria a chance de me arrepender, de me desapontar com o que espero, porque não esperaria simplesmente nada. Não acordaria por nunca ter sonhado. E lá de longe, me ver pequeno por trás das cortinas, e as sombras existindo porque existem luz. E a próxima vez que a noite chegar e parecer que não vai acabar nunca mais, que eu possa voltar no tempo, me olhar e dizer "Vai passar"
[come and kill me again.while.you.smile.like.a.friend.]
"Eu nunca pude te contar. Mas no meio desse hiato enorme entre a gente eu te vi uma vez. Você não me viu, lógico. E melhor que assim tenha sido, porque, de certa forma, eu escolhi que você não me visse.Algum ponto da República Argentina. Algum dia da primavera do ano passado. Eu não sabia o que estava fazendo a 500 quilômetros de casa, eu só fui o mais longe que eu podia ir, então, não é justo me perguntar o que eu fazia exatamente naquela rua, naquele tubo.Então, a duas esquinas dali, você, ou supostamente você, surge duma rua que cruza a avenida. Eu sabia que era você, porque era o mesmo sapato, a mesma bolsa da última vez que você ficou na minha frente. Mas sabia que era você. Porque ninguém mais ia brilhar tanto no meio daquela calçada suja.E mesmo que não fosse assim. Que você vestisse roupas completamente diferentes, que nunca vi em você, que você pintasse seu cabelo e se mudasse inteira, eu ia saber que era você. Se cada esquina daquela cidade tem seu cheiro, se as paisagens tem sua cara e a água seu gosto, eu sentia esse cheiro tão forte, que me virava bruscamente, como se um imã me puxasse, e lá era você, ainda mais linda do que quando você foi embora.E não foi por vergonha que não parei tudo que ia fazer, pulei aquela catraca e corri atrás de ti. Meu rosto espantado, com a visão embaçada te mirando de longe com meu corpo apertado contra o vidro era uma visão muito mais patética do que se te seguisse, como num filme. Foi por medo, não só medo de você fugir de mim literalmente, mas medo de estragar aquela cena, te distrair enquanto risonha você reinava sobre aquela rua malcuidada. Como um fotógrafo que não interfere na cena, só me sobrou ver você de longe, enquanto timidamente cantava There She Goes baixinho, com os olhos cheios d'agua e me perguntando como você estava enquanto assistia você ir embora."
[os.teus.sonhos.destruíram,.tua.jóia.roubaram,.este.azar.sobre.você,.como.uma.nuvem.que.não.chove]
Antes, eu sentia essas histórias na lembrança. Não como se fossem um filme pasando na minha frente, como agora. Mas um fato vivo na memória, que poderia até acontecer de novo.As pessoas a minha volta, eram testemunhas e não personagens. Eram não parte do passado, mas dum presente que aconteceu ontem. E poderia acontecer de novo.Antes, esse era o caminho de ida, não de volta, e qual a surpresa de encontrar o que deixei, exatamente do jeito que deixei, mas sem eu como figurante na história. E isso nunca, nunca mais vai acontecer de novo.
[you.can.taste.the.fire.from.yourself]
Antes de mais nada, a vida é feita de disfarces. Não só aqueles que tem um jardim na cabeça com um mundo sujo em volta. Tem os que fazem trincheiras desnecessárias na expectativa (ou esperança) de uma guerra com o resto do mundo, há quem faça máscaras apenas por gostar de usar elas, bem, pouco importa. Como quem cimenta a calçada e se esquece que há 20 quilômetros de terra abaixo daquela casquinha, , chega um dia onde a gente passa a acreditar na própria mentira.A maioria funde sua mentira com a mentira dos outros, e assim segue feliz até o fim da vida. Mas algumas pessoas, recebem daquilo que alguns chamam de Deus, outros de Alá, Buda, destino, acaso ou Capitalismo um castigo cruel: um pouco de inteligência. E eles percebem que não são aquilo que acham que são. Alguns sofrem um pouco mais, são mais inteligentes ainda e percebem que não são aquilo que eles queriam ser também.Daí pra frente, é tudo desespero. O jogo de esconder o que você sente só gera mais coisa para esconder. Até o dia onde tudo não cabe mais onde quer que você esteja escondendo. Lógico que um dia você perde a noção de tudo a sua volta. Lógico que tudo vira um mundo de psicose onde todos querem te comer vivo. Mas isso não é o pior: um dia você vai olhar no espelho e não vai ver você. Não vai ver o que você queria ver. Não vai ver simplesmente nada.Poderia ter sido tarde demais pra ver que a vida não é tão ruim assim. Mas ainda há pessoas que conseguem fazer o caminho de volta. Os que conseguem se livrar disso tudo, e os que mergulham no jogo até o fim e vencem, enganando todo mundo que precisa sobre quem eles realmente são: todos, menos eles mesmos. E esses são os dois grupos mais corajosos de pessoas.
[walking.walking.walking]
Ah sim, os anos. Os anos passando, os dias escorrendo, e a gente precisa eleger uma data pra olhar pra trás e ver que tudo foi embora.Ah sim, os anos, as horas, como se a fita acabasse, e sua cabeça resolvesse rebobinar tudo, em um dia, e pintasse tudo cada minuto com uma cor. E cada lembrança ruim serve de incentivo, cada lembrança boa é como um alívio, como se você, semi desmaiado, no corner dum ringue, com todos que te amam, chacoalhando sua cara com tapas e dizendo, "vai lá!"E você? Você só lembra do seu oponente caçoando de ti, do seu peso, da sua aparência um dia antes. E não há mais o que você possa fazer. Você jamais vai esquecer do seu corpo prostrado no chão, e da vergonha que foi isso, você quer vingança, você quer, mas você não pode fazer mais nada.E olha pra eles, tão sorridentes, confiantes, e queria que eles não te amassem, queria pelo menos, não ter esse peso de fazer pessoas tão especiais tristes, por não poder se mostrar feliz pra elas.Porque? Porque você escolhe sempre aquela imagem, que mais te tortura, que mais dói, pra ficar repetindo, pra sempre, que dói mais ainda, e não consegue escapar? Você não se levanta do chão sozinho. E ninguém pode entrar no ringue e te tirar dali. Ninguém pode te levantar, nem você mesmo. Ou pode? Há quem possa. Mas quem pode, vai chutar suas costelas assim que puder, quem sabe que pode te fazer feliz, vai sempre te deixar mais triste ainda, como se sua dependência importasse pra eles.Ah sim, Luiz, olha o novo ano, sorrindo, por detrás da montanha, colorindo os dias, com aquelas mesmas cores lembra? Do ano passado, retrasado, aquele raio de esperança que se esgota tão rápido, e você aprende a viver sem ele.Olha lá, tudo mudando, a sua volta, você mudando, você fazendo mudar, e o que te deixa ainda assim? O que te faz triste se tudo só depende de você agora? Como dói ter chegado aonde você chegou, e olhar pra trás e ver que não adiantou, que você venceu, mas não aonde e como queria. Que naquelas fotos, você ainda não se vê, que hoje, tudo é melhor, mas ainda não é suficiente, e o passo adiante que lhe falta parece impossível?Você sabe do que precisa, garoto, você sabe.Esse é justamente o problema.
Losing in your home town
The Crowd call your name
They will love you all the same
[o.hino.inimigo.ressoa,.e.ressoa]
Ah sim, os rojões. Como era melhor! Como era melhor do que passar a virada na sacada, ouvindo Let Down, alheio a aqueles fogos, e aquele povo.
Sempre, com sua mochilinha, seu ar de garotinho perdido, no meio dos estranhos, fazendo de tudo pra agradar, e de tudo pra ser agradado, a quilômetros de casa.
Ela vira, me beija, e eu olho a volta, todos se felicitando, e eu com aquele meu ar de alheio, o mesmo daquele dia, de 31 de dezembro de 2005. Ainda faltava alguma coisa. Olho de novo, me perguntam "E seus pais, não quer ligar pra eles?" "Eles não tão em casa." Precisava de tudo menos deles nessa hora. Pra que lembrar deles.
"-Feliz ano novo, Luiz"
"-Obrigado, e obrigado por me dar a melhor coisa que já tive na minha vida, Liliana"
A pequena, toda saltitante, "a melhor coisa que já tive na vida", sim, ali defronte, eis que a outra pequena a puxa, "Vem, me conta tudo!", com aquela empolgação juvenil, aquela empolgação, que mais uma vez, eu não faço parte.
Sobra pra mim tudo o que sobrou dia 31 de dezembro de 2005: sobra eu mesmo, julgando tudo:
"Mais um ano, Luiz. Mais um ano que passou perdido, e mais um ano que vem sem garantir nada, e prometendo muito. E o que vai acontecer contigo, quando você for embora daqui? Ela vai te esquecer, você vai encarar sua cidade, seu emprego de novo, de cabeça baixa, como sempre..."
Ela me viu chorando do outro lado da sala, me pôs no colo, e como, que mentalmente, me disse: "Cale a sua boca". Abriu um largo sorriso e seus olhos se encheram de lágrimas.
Ora, que patético, um marmanjo, um sujeito sem casa que se vira a 500km de casa sozinho, no colo, dependendo duma menina.
"-Porque você chora? Sou eu quem choro aqui, esqueceu?"
"-Porque eu não sei viver sem chorar", chorando mais ainda. O que não é verdade. Porque por longos 8 meses, ninguém mais veria ela chorando, e 8 meses depois, não era mais por minha causa, nem de felicidade. Whatever, cada um paga o preço que tem que pagar.
Eu me levantei, e olhei pra tudo em volta de novo, como se um anjinho tivesse me feito enxugar os olhos (e tinha) e ver a vida de outro modo. Eu, pela primeira vez na vida, eu vi um ano novo como as outras pessoas vêem, eu vi como uma chance de fazer tudo diferente, de começar as coisas do zero, de ser feliz, corrigindo que tudo deu errado."
E hoje, quando ano passado, eu estava desse jeito, hoje que todas profecias se concretizaram e tenho mais um ano novo pela frente, não me atormenta isso ter passado. Não me atormenta tudo isso ter acabado, porque eu sabia que ia acabar. Não me atormenta ter acabado tão rápido, porque ia, eu sabia que ia. Me atormenta não poder lembrar disso, lembrar como se tivesse sido mentira, uma coisa que eu inventei, pra disfarçar todo o resto, porque todos os lados, menos o meu, renegam isso. Eu gosto de lembrar disso, mesmo tendo acabado, só queria lembrar em paz, poder lembrar com todas as forças, já que é o que me sobrou
[heaven.knows.it.got.to.be.this.time]
Deus existe?Deus existe é um grande sacana.Chega uma hora na sua vida, onde tudo ruma pro tudo ou nada, onde as cortinas finais ficam mais claras, e tudo que você sabe é que vai se foder grandemente, ou não.E tudo que você consegue fazer é sentar num canto escuro e chorar num lugar onde ninguém te conhece.O que você entenderia se nessa exata hora você visse seu segundo maior herói, tocar uma música do seu maior herói, que diz "Deus sabe que tem que ser agora?"http://br.youtube.com/watch?v=mojJSYSjP18&feature=relatedSem mais.