Quinta-feira, Agosto 30, 2007

[us.kids.know]

Eu não lembro quando comecei a gostar de trens. Quando era pequeno não tinha o que fazer e desenhava... anéis viários, no caderno da escola ao invés de estudar. Eles inexistiam, porque eu nunca tinha visto um a não ser nos desenhos do pica pau, geralmente com alguém amarrado nos trilhos.
É como todas coisas que eu gosto, parecem estar predestinadas ao fracasso, uma causa perdida num mundo onde meninos são ensinados a adorar carrinhos (e meninas a adorar meninos com carrinhos) desde cedo. Parece mais uma coisa que fiz pra contrariar a humanidade. Na verdade, carros são feios. Seus faróis são como dois olhos te vigiando assustadoramente. Eles rugem, avançam pra cima de você, jogam uma fumaça preta em ti, como se estivesse disputando conosoco o título de espécie dominante da terra. E o pior: o são. Somos escravos deles.
Diferente é uma locomotiva. Rasgando lentamente os campos, sem mudar a paisagem em volta, com aquele ruído pesado que te esvazia por dentro...

Talvez se os maquinistas pudessem parar de me olhar com cara de louco eu me sentiria melhor em sentar nos trilhos e ver eles passarem. Quando se aproxima a locomotiva fazendo o chão tremer (com seu maquinista mal-encarado a bordo). Mais uma, ajudando a puxar os vagões, como um atleta na maratona fazendo o máximo de esforço.
Seguem se as dezenas, centenas de vagões, com aquele barulho grave e constante que sempre fez eu parar pra pensar na vida. Fazia querer ser um vagão daqueles, se pensar que eles eram tão lentos como eu, eu podia ir embora.
(Nesse momento é lindo olhar para trás e ver todos os carros, fracos, pequenos e impotentes, parados, recuando com medo do trem. Eram seus 5 minutos de vingança, os 5 minutos que ele tinha pra mostrar quem é mais forte até que a sujeira do capitalismo entre no jogo).
Quando termina tudo, você vê no último vagão, um espacinho onde você cabe, e indaga se não deveria pular junto. A vibração dele nos trilhos faz você tremer até sair lágrimas, e aí nessa hora você vê quanto é sadio ir embora.
Então era isso que sobrava a mim fazer, ir embora.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

[with.sight.and.sound.becoming.fragile]

A vida lá fora é um eco. Uma festa eterna. Um vai e vem de cores incessantes, luzes sorrindo, dias e noites vagando lentamente. Um mundo brilhante do qual não faço parte.
A vida lá fora resplandece, cheia de pessoas bonitas e felizes, queimando gasolina, passando noites acordadas, trocando palavras alegres em volume alto, gritando, diriam se fosse eu, como espelhos, que refletem o pensamento um do outro, refletindo o próprio reflexo do outro, que contém nada, e nada, e nada...
Lá fora, o vento frio que corta é o mesmo que cura, o que despenteia é o mesmo que afaga, que apesar de todos os perigos é o que abre nossas asas e nos joga contra o mundo, para o nosso próprio bem. Um ninho de gaviões, que empurram os estranhos para fora quando não os consegue engolir.
E para sempre, todos eles não vão dar valor ao canto do vento, ao frescor da noite alta, a ver os dias nascerem tão vívidos. Enquanto isso continuar acontecendo, enquanto sobrar-lhes algo mais que eles mesmos, enquanto eles tiverem algo mais a fazer que se encher de perguntas e planejar o dia que não vai chegar nunca.