[slow.down]

last chance to make believe in always and all it seems
train wrecks hide underneath your umbrella
set the framed destiny on this first name soliloquy
tired symphonies play downward
(let me give the world to you - the smasing pumpkins)
Eu trabalho perto duma linha de trem ativa. Em alguns dias de sorte, consegui ouvir o trem apitando de longe. Eu sou apaixonado por trens, talvez alguém aqui não saiba. Mas eu nunca tive a idéia fantástica de ir lá andar sobre os trilhos. Eu sempre tava ocupado com algo mais importante.
Essa semana eu não tinha vontade de fazer nada na vida. Então eu fui. Eu fiquei mais deprimido por ver o estado de abandono duma coisa que eu gosto tanto do que feliz, porque eu me sentia livre. Eu gosto de trilhos, por ver eles desbravando o mato, avançando sobre o selvagem, e isso faz eu sentir que posso também. Eu me sentia preso, eu queria fugir, eu queria correr por aqueles trilhos até chegar na Júlio Prestes, em São Paulo.
Eu queria ir o mais longe que pudesse pra compensar o vazio que eu carregava. Eu saí da linha e fui pra beira da rodovia. Chorando feito um louco. Eu imagino o quão bizarra deveria ser a visão daquele menino feio, sujo de graxa, chorando por estar perdido, não no espaço, mas na vida, no destino, com as convicções destruídas.
Eu estava em cima da passarela, com a visão alí, do sul, chamando de volta, sorrindo, dizendo "Volta, Luiz, volta pegar o pedaço do seu coração que você deixou, volta com o corpo, que sua cabeça ficou aqui."
E eu, que ali sozinho, eu realizei o sonho de estar o mais longe de casa que podia, que ali me sentia feliz, humano, parecia que voltando eu ia passar a ser uma pessoa novamente, como mágica. Eu pensava se pelo menos a sementinha que plantei, na memória do que me faz sorrir e chorar, tinha vingado. Pelo menos isso era o que queria, que ela soubesse que ninguém ia ser tão insano novamente daquele jeito na vida dela. E eu queria olhar e procurar naqueles olhos a resposta de tudo isso, era isso que eu queria, mas eu vou morrer sem saber, e mesmo sem saber como procurar, eu decidi partir de volta.
Quando tomei a cidade de volta, onde as pessoas me olham estranho, eu ainda carregava o rosto vermelho e inchado, daquele menino fofo e rejeitado, todo meigo, delicado e idiota, mas pelo menos, a única pessoa que me amou, por uma semana que fosse, me amou por eu ser fofo e idiota.
